...muitos me acusaram de ser incoerente, mas sempre achei que era uma virtude mudar de ideia toda vez que tinha uma ideia melhor. A política, ela própria, é tudo, menos constante. Adquire novas formas e novos sentidos a todo momento, e nos confronta com dilemas que nunca imaginamos existir, que dirá ter de enfrentar. Ela é pitoresca e cheia de intrigas, cômica, irônica e incompreensível, cruel e bizarra, humilhante, patética e surreal, injusta, dolorosa e deprimente, generosa, exigente e capaz de grandes realizações, irritante, ilusória e escapista. Pode até não ser nada, ou quase nada.
A angústia das novas gerações, por exemplo, parece grande demais para que um comício a aplaque, um voto a satisfaça ou um simples mandato eleitoral dê vazão a seus impulsos. Não sei se é possível, não sei nem mesmo se é desejável, "entender de política". Essa expressão, para mim, sempre soou mal, como se anunciasse um infinito repertório de subterfúgios, de adiamentos, de posicionamentos complacentes com os problemas do país. Ela, para valer a pena, precisa ser vivida com a máxima intensidade.
Depois de alguns anos acompanhando-a de longe, seu poder de me arrebatar acabou. Não vi mais sentido em ficar freneticamente tocando a campainha. Acabei engolido por um mistério ainda maior, só meu, que a antecedia na minha vida e que voltou para me buscar.
Se eu pudesse dar ao cidadão brasileiro um único conselho (e o cacófato aí, proposital, pode indicar o valor que a essa altura eu dou para os conselhos), seria o seguinte: nunca acredite no político que só te dá boas notícias.
de Rodrigo Lacerda no texto “Política – a gente morria por ela e se matava por ela”, publicado no caderno “Ilustríssima” da edição de 20 de fevereiro de 2011 da Folha de São Paulo. Nele, o escritor narra, pela voz do seu avô, Carlos Lacerda, o velório e o enterro e o jeito peculiar de fazer política e ver o país.
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